Dillon, TX é bem longe daqui

Posted: 23 de July de 2014 in Bastidores
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fieldhouse

Quando se fala de High School Football, difícil quem não associe o termo com o drama de sucesso “Friday Night Lights”, série que permaneceu no ar por cinco temporadas na NBC, e que também foi exibida no Brasil por canais da tevê fechada. Uma comunidade que coloca sua equipe de alunos acima de tudo, respira o esporte 24 horas por dia, e jogadores que são tratados como celebridades. Por mais que a história seja inspirada em fatos reais e tal devoção realmente aconteça em diversos pontos do território americano, a fictícia cidade de Dillon, no Texas, estaria bem, mas bem longe de West Philly.

Filadélfia é uma grande candidata a se tornar a próxima Detroit, que viu sua economia implodir com a crise de 2008, declarou falência e agora enfrenta sérios problemas de violência. A cada ano, mais escolas públicas de Philly fecham as portas, devido à falta de recursos da Secretaria de Educação. Antes do início do ano letivo de 2013, por exemplo, só teve aula porque a Secretaria conseguiu um empréstimo de US$ 50 milhões na última hora. E quando a grana aperta, os primeiros departamentos a rodar são os de atividades extracurriculares, principalmente esportes.

A falta de dinheiro forçou as protagonistas da maior rivalidade na cidade – Martin Luther King High School e Germantown High School – a terem que deixar o ódio de lado e se unir. Germantown foi fechada pelo governo, e os alunos foram enviados para a MLK. A fusão virou até documentário, e o trailer (pra quem manja de inglês) já dá uma boa noção de como são as coisas por aqui.

 

Felizmente, ainda não é o caso da West Philadelphia High School, um time que reúne estudantes de quatro escolas da região. Mas a realidade é bem diferente dos filmes e das séries. Estrutura e equipamentos de primeira linha, boosters injetando dinheiro para instalar um “jumbotron” e comércio fechando as portas, deixando placas escritas “Gone to the game” não acontecem na Filadélfia. Mas isso não é desculpa para não amar futebol americano.

Tenho vários amigos que trabalham com treinamento esportivo em escolas públicas no Brasil, portanto conheci de perto seus desafios para construir equipes vencedoras mesmo sem o apoio necessário. E posso dizer que mesmo no chamado “primeiro mundo”, a situação não é muito diferente. É comum os técnicos aqui terem que usar seus próprios carros para levar atletas para compromissos como jogos-treino, ou até ter que usar espaços públicos para os treinamentos cotidianos devido a disputas políticas e burocráticas que impedem o uso dos campos escolares durante a pré-temporada.

A situação é complicada, porém não apocalíptica. Pode não ser uma estrutura de ponta, mas temos à nossa disposição um antigo prédio do governo transformado em uma fieldhouse, com escritórios, vestiários e equipamentos de musculação. Equipamentos velhos, mas estão lá. Nosso campo, pela primeira vez em cerca de 30 anos, agora conta com iluminação, portanto todos os jogos em casa serão sob as “luzes de sexta à noite”. Há um novo placar eletrônico, sistema de comunicação para os técnicos, equipamentos para treino como sleds e uma variedade de punching bags.

Na maior parte dos Estados Unidos a dinâmica é reversa: a periferia é onde vivem os ricos, nos subúrbios. Os pobres moram próximos do centro, em uma região densamente urbana construída no fim do século 19, início do 20, chamada de “inner city”. E é essa a população atendida pela WPHS. Uma escola que, de acordo com a Secretaria de Educação, tem uma população composta por 96,6% de afroamericanos. Etnia que, no time de futebol americano, é representada por 100% dos atletas.

E no pouco tempo em que estou envolvido como técnico, não demorou para perceber as dificuldades que esses garotos enfrentam, muitas vezes com estruturas familiares pouco sólidas e com problemas que já seriam complicados para adultos, mas precisam ser enfrentados por esses caras ainda na adolescência.

Como resultado, o time de futebol americano passa a não ser tanto uma “fábrica” de talentos que serão fortemente recrutados por universidades da primeira divisão da NCAA, e sim uma ferramenta para formação de jovens homens. Algo que os tira das ruas e os ensina valores como disciplina, lealdade, companheirismo, dedicação, união, foco e competitividade, os quais serão extremamente necessários para atingir sucesso na vida adulta.

Por outro lado, apesar de ser muito “distante” daqui, não é preciso ir longe para encontrar Dillon, Texas. Nesta semana tivemos um treino de 7 contra 7 (apenas jogadas de passe) contra a Lower Merion High School, escola que revelou a lenda da NBA Kobe Bryant, localizada nos subúrbios, a cerca de 15 minutos de West Philly – e não faz parte da Secretaria de Educação da cidade.

Campo do Lower Merion Bulldogs

Campo do Lower Merion Bulldogs

Em uma vizinhança cercada por casas imponentes e amplos gramados, uma escola que mais parece um câmpus universitário, com estrutura exemplar, campo de grama sintética, arquibancadas nos dois lados, pista de atletismo e jogadores que certamente vêm de uma base familiar mais favorecida, com etnia variada. Mesmo assim, visivelmente inferiores a nossos atletas, tanto no aspecto técnico como no porte físico.

Não se engane, as diferenças sociais também existem nos EUA. Mas é algo que praticamente some quando o capacete veste a cabeça, o apito soa e a bola oval é colocada ao ar com um poderoso chute. Pois a paixão por este esporte é algo que não vê cor ou saldo na conta bancária.

Portanto, é incrível não apenas a oportunidade de vivenciar o dia a dia de um time de futebol americano e aprender mais sobre as nuances táticas do esporte e formas de treinamento, mas melhor ainda é a sensação de ir todo dia ao trabalho sabendo que você pode fazer a diferença. Que esses anos como parte de um time estarão gravados para sempre na memória dos atletas. E, com alguma sorte, estampados definitivamente também no caráter desses garotos.

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Comments
  1. Armando Chaves says:

    Matheus o video não esta disponível para assitir para quem reside fora dos EUA… Infelizmente…
    Muito bom o artigo.
    Sigo acompanhando

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  2. Teresa Gonzati says:

    Sensacional, saber o que acontece atrás dos panos. Parabéns!

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  3. bebber says:

    Muito bom…parabéns cara

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