Nos EUA, técnico brasileiro também ganha jogo de futebol americano

Posted: 23 de March de 2015 in Sem categoria
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Harriton

Normalmente é difícil encontrar um momento de paz em meio a uma situação caótica para colocar as coisas em perspectiva. Mas quando essa oportunidade aparece, geralmente é difícil de esquecer. Tive a chance de fazer isso durante um dos dias mais importantes em minha carreira de técnico de futebol americano, e me surpreende como o corpo humano se agarra aos mínimos detalhes desses poucos segundos de devaneio.

Após árduas semanas de dois treinos diários sob o escaldante sol do verão dos Estados Unidos, o ar abafado e úmido de West Philly finalmente deu lugar a uma leve e refrescante brisa que parecia anunciar o que o estômago e os nervos já sabiam. Dia 29 de agosto, uma sexta-feira, marcava o início da temporada 2014 de futebol americano para a West Philadelphia High School, minha primeira como técnico nos Estados Unidos.

Foi um daqueles dias que demoram mais a passar do que véspera de Natal, mas movimentado desde cedo. Uma agenda dominada por tarefas inerentes à posição de técnico, como reuniões para as últimas definições de game plan e depth chart, instruções sobre estilo de jogo do adversário, conversas para garantir que todos os atletas estavam na mesma página quanto a sinais de chamada de jogadas, ou seja, aquilo que se espera das horas pré-jogo.

Mas também alguns afazeres que superam essa instância, como destrinchar frangos e ajudar na cozinha para servir almoço aos atletas, distribuir os uniformes, enfaixar tornozelos, punhos e outras juntas já debilitadas pela intensidade dos treinamentos. Afinal, a liga pública da Filadélfia é diferente do que vemos em obras de ficção a respeito de High School Football. É preciso fazer milagre com os recursos disponíveis e se desdobrar em diversas funções: algo que tirei de letra visto que os “escassos recursos” daqui costumavam povoar meus sonhos enquanto atleta e treinador no Brasil.

Gameday é um dia extremamente puxado e estressante, que exige sinergia entre uma comissão técnica formada por adultos que escondem seu nervosismo por trás de respostas grossas, diretas e por vezes mal-educadas. Mas isso é algo que se aprende de imediato ao entrar na base de uma linha de comando formada por pessoas já calejadas com esse tipo de ambiente.

Na quinta-feira, o head coach Frank Steed enfatizou durante uma reunião da comissão que nada dito durante o dia de jogo, principalmente na sideline, deve ser levado para o pessoal. “Eu vou xingar vocês, vocês vão me xingar, a gente vai discordar e a coisa vai ficar feia – você está prestes a descobrir isso”, disse, olhando para mim, enquanto os outros membros do staff exibiam sorrisos no rosto, provavelmente relembrando episódios passados. “Mas nada disso é pessoal, e fica tudo naquela sideline. Tenho total confiança no julgamento de vocês e, se não fosse para ser questionado por vocês, os senhores não estariam aqui.”

Por volta das 17 horas eu já estava exausto. E ainda havia pela frente um traslado até o campo da Harriton High School, em Rosemont, PA, e 48 intensos minutos de um esporte que me acostumei a respirar, só que em outro nível, outra velocidade, outra atmosfera, outra pressão. Mas o futebol americano, por mais que exija extremo planejamento e organização, proporciona inesquecíveis momentos de calmaria justamente no olho do furacão.

Onibus

Todos embarcamos em dois ônibus escolares – aqueles clássicos, amarelos, quase um símbolo não oficial americano –, um para o ataque, outro para a defesa. Nosso coordenador defensivo, Karl “Bubb” Patrick, falou brevemente sobre a importância do jogo e o estado mental necessário para essa breve viagem, mas nesse caso específico talvez nem fosse necessário. Era possível sentir o peso da tensão. Vinte e poucos adolescentes – ou como o head coach prefere dizer, jovens homens negros – que normalmente não conseguem ficar quietos por 30 segundos, e o silêncio era brutal. Cortado apenas pela frequência aguda das ondas sonoras que vazavam algum desconhecido rap dos fones de ouvido, denunciando que o elevado volume era uma tentativa de criar um ambiente isolado, aconchegante, protegido.

Conheço o ritual. Fazia isso desde sempre como atleta. Decidi, então, dar continuidade como técnico. E, de fato, a música é capaz de criar uma bolha dentro da qual você pode encontrar-se com si mesmo e ter uma breve conversa pessoal a respeito do que está acontecendo lá fora.

Sentado na primeira fileira daquele ônibus escolar, o sol do fim de tarde cortava ocasionalmente através dos terrenos densamente arborizados da região de Lower Merion, enquanto rodávamos por estradas secundárias que passavam à frente de espaçosas casas, com amplos quintais e tabelas de basquete nas garagens, um cenário totalmente diferente dos intermináveis sobrados geminados em condições precárias, pintado pelo cinza do concreto, poluição visual e calçadas que jamais viram um gari em West Philly, a pouco mais de dez minutos dali.

Coloquei, então, meu fone de ouvido e Explosions In The Sky, responsável por grande parte da trilha sonora instrumental e totalmente característica do longa-metragem “Friday Night Lights” e algumas coisas também da famosa série. Os primeiros acordes foram o suficiente para me transportar quase que para uma outra dimensão, na qual tive a oportunidade de parar o tempo e avaliar o que estava acontecendo.

Nesses momentos, a mente vai longe. Impossível não lembrar meus primeiros treinos no Curitiba Brown Spiders em 2005 e uma conversa em particular, quando afirmei para dois amigos que eram grandes as chances que morreríamos antes de ter qualquer chance de sequer vestir um capacete, shoulder pads e dar um tackle em alguém, visto as dificuldades de adquirir tais equipamentos no Brasil, naquela época.

Lembrei da Quinta-Feira da Paixão de 2007, quando o brown spider Marcio Alves II – responsável direto por começar o futebol americano full-pads no Brasil – postou no grupo do time que havia recebido mais uma remessa de equipamentos. Ao telefone, disse que meu capacete ainda não havia chegado, mas meus pads estavam lá. Veio então o cheiro daquele Riddel Air Pac novinho em folha, minha posse mais preciosa no momento.

Lembrei de todos aqueles sábados de treino nos quais, da forma mais rústica e pura, desenvolvíamos conhecimento do esporte de forma empírica, pois ninguém mais no país estava na mesma situação, exceto aqueles que tiveram oportunidade de jogar nos Estados Unidos.

Veio então o rosto de todos aqueles companheiros que me ajudaram a traçar essa trajetória, desde o primeiro jogo full-pads do país em 2008, passando por doloridas derrotas e gloriosas vitórias em campo. Também a dor do pós-operatório primeiro na fratura da fíbula, e um ano depois no rompimento do ligamento do joelho e a realização de que, no dia 13 de agosto de 2011, caí no gramado após encarar um bloqueio de um fullback e, por uma falha técnica minha, de lá jamais me levantei para um novo down.

Foi impossível, também, driblar a realização de que poucas semanas antes eu estava prestes a desistir do experimento americano por uma série de dificuldades pessoais, um ano e meio após largar tudo e todos em busca de um sonho que, apesar de todas as linhas tortas, estava, de certa forma, realizado no cheiro de óleo diesel daquele ônibus escolar, no esplendor do cenário suburbano da Filadélfia e no rosto compenetrado dos atletas prontos para a batalha.

Apesar de toda a solidão do “exílio”, da sensação de ser um “forasteiro”, dos olhares diferentes por causa da cor da minha pele sem saber que também sou parte de uma minoria, naquele momento eu estava acompanhado por todos aqueles que compartilham desse sonho. Então naqueles poucos minutos, tudo parecia fazer sentido, todo sacrifício parecia valer a pena, toda luta parecia ter um propósito.

E no refrão de “Your Hand in Mine”, com o rosto colado no vidro, olhando para os traços amarelos rapidamente pontuando o impecável asfalto, essa confluência de sentimentos se traduziu em poucas, mas longas e carregadas lágrimas que romperam a barreira da compostura e, após rolar pelo rosto castigado pelos longos dias de treinos sob o sol, protegidas pelo óculos escuros, se espatifaram contra o couro artificial marrom do apertado banco daquele ônibus amarelo.

A bolha desse momento foi rompida por Bubb, ao gesticular apontando para a entrada da Harriton High School, que mais se assemelhava a um campus universitário brasileiro. Diferente de nossa realidade na cidade, ali na “periferia” parecia uma “high school de verdade”.

Descemos do ônibus e cruzamos a cerca para o impecável campo de grama sintética, circundado por uma pista de atletismo talvez até melhor da que tínhamos na Universidade Positivo, onde me formei em jornalismo e costumava correr apenas de pads – pois o capacete ainda não tinha chegado – para ganhar condicionamento.

O Harriton Rams já estava em campo aquecendo, vestindo o cinza e bordô em impressionantes uniformes da Under Armour, executando drills com extrema disciplina sob a coordenação de uma grande comissão técnica. O tipo de demonstração que já coloca um time em vantagem, antes mesmo do kickoff.

Coordenador defensivo Karl "Bubb" Patrick falando com a DL

Coordenador defensivo Karl “Bubb” Patrick falando com a DL

A sideline do time da casa é acompanhada por uma grande arquibancada metálica, com capacidade para 2 ou 3 mil pessoas, chuto eu, equipada com uma cabine de imprensa dividida em três ambientes: no meio, uma sala para o controlador do placar eletrônico e o locutor da partida, e nos cantos dois boxes para membros observadores da comissão técnica dos times.

Para esse escritório fui designado nessa primeira partida, munido de um headset que me colocava em constante comunicação com o coordenador defensivo e o head coach. Uma perspectiva totalmente diferente para quem está acostumado a comandar o jogo da sideline, mas também extremamente interessante, já que de lá é possível ver tudo o que está rolando em campo.

Vista da cabine durante a partida

Vista da cabine durante a partida

Os Rams não participam da liga pública da Filadélfia, pois estão em outro distrito. O jogo era apenas um “amistoso”, não contaria para nossa eventual classificação aos playoffs. Por isso a estrutura é tão diferente. Com menos escolas por habitantes, a fatia de impostos destinados à educação é bem maior, e esse tipo de coisa acaba se traduzindo em campo.

A equipe executa uma spread offense no-huddle, algo raro em nossa liga, na qual o forte é a corrida, em um estilo mais antiquado de futebol americano. Por isso o jogo foi bastante complicado, especialmente do ponto de vista defensivo. Foi necessário muito trabalho para ajustar a filosofia de defesa 5-2 pregada por nosso head coach e diminuir a eficiência aérea do adversário.

Apesar de um jogo equilibrado, os Rams passaram à frente no placar faltando pouco mais de oito minutos no último quarto. Perdendo de 14 a 13, nosso ataque não teve sucesso na posse seguinte e precisou fazer um punt, entregando a posse para o adversário na linha de 16 jardas de seu campo de defesa. A partir de então, bastava a Harriton comer o relógio e vencer por um ponto.

Em um drive muito bem executado, os Rams usaram a ameaça pelo ar para encaixar algumas boas corridas, mas se depararam com um 3rd and 5 em nossa linha de 22 jardas, e se viram obrigados a passar. Foi quando eu implorava para o coordenador enviar qualquer blitz que tivesse em sua manga para pressionar o quarterback. No terceiro down, a OL adversária não conseguiu sair para executar uma screen, e o QB precisou se livrar da bola.

Quarta para cinco em nossa linha de 22. Cerca de dois minutos no relógio (não lembro exatamente quanto), perdendo por um ponto. “Esse é o lance do jogo”, disse para Bubb. “Não importa o que seja, precisamos de pressão”, implorei, ainda não totalmente confortável em impor minhas vontades e estratégias, afinal era meu primeiro jogo. “I got you”, respondeu Bubb. E pouco tempo depois vejo entrando em campo o camisa 26, Calvin Albright.

Calvin é um garoto único. Devido a uma dificuldade auditiva, frequenta aulas para alunos com necessidades especiais. Apesar de extremamente rápido, não tem uma grande estatura. Mesmo mais parecendo um DB, sempre insiste que quer jogar de nose tackle ou DE. E Calvin é daqueles caras que faz tudo 100%, seja no aquecimento ou nas punições com corridas de 100 jardas após o treino. Dedicação que é até motivo de chacota entre seus colegas.

Apesar de extremamente forte e explosivo, Calvin é daqueles caras que precisa de uma tarefa bem definida para conseguir executá-la. Se for preciso fazer alguma leitura, algum check, as chances de sucesso diminuem bastante. Portanto, durante toda a pré-temporada, era um requisito do head coach que o coordenador defensivo e eu achássemos um lugar, um papel, para Calvin no time.

Sem leitura o suficiente para jogar de DB ou LB, Calvin passou o verão treinando com a DL, sob minha supervisão. Assim, participou dos mais diversos drills, inclusive os de técnica de pass rush. Sempre dedicado, vinha após os treinos pedir mais dicas, perguntar se estava fazendo direito. E sempre me esforcei para dar atenção. Já é difícil às vezes entender o sotaque dos adolescentes negros, com todo o swag e as gírias, mas Calvin ainda por cima tem dificuldade para falar, devido a sua condição auditiva. Mas sempre nos demos muito bem, é um garoto de ótimo coração.

Calvin entrou em campo no lugar de nosso DE da esquerda, e ouvi pelo headset Bubb lhe dando a instrução: “Calvin, vá pegar o QB. É só isso”. Em pé, andando de um lado para o outro dentro da pequena cabine que dividia com o técnico assistente ofensivo Tim Morrison, eu sabia que o jogo seria decidido ali. Dava até uma relutância para assistir, mas hoje creio que fiz a decisão certa.

Assim que a jogada começou, vi Calvin se livrar com facilidade do right tackle e partir em disparada para o sack. Nosso DT Mustafa Owens também teve sucesso contra seu bloqueador e, juntos, os dois conseguiram derrubar o QB e recuperar a posse para o ataque, ainda apenas com um ponto de diferença.

Sob comando de Lou Zambino, o quarterback LaVell Harper encontrou o WR Devante Larsen em um touchdown de 56 jardas, que acabou nos dando a vitória por 19 a 14. Harriton ainda teve a chance de executar mais um drive, mas novamente sofreu um turnover on downs.

Bubb recebeu grandes louros pela substituição de Calvin e, dessa forma, a jogada que nos manteve vivos na partida. No fundo, eu estava extremamente satisfeito ao saber que havia ajudado a identificar aquele ponto crucial e tinha colaborado com os ajustes que nos deram a vitória.

Mas a certeza que eu tinha, de certa forma, ganhado aquele jogo para a West Philadelphia High School só veio mais tarde, depois das luzes apagadas, bolsas carregadas e todos os atletas novamente embarcados nos ônibus escolares. Depois de me certificar que todos estavam à bordo, entrei e sentei-me no mesmo banco, na primeira fileira.

Com um imenso sorriso, Calvin tirou seu fone de ouvido e, sentado na segunda fileira, me chamou. “Obrigado coach”, disse. Por quê, perguntei, surpreso. “Aquele negócio de Rip que você ensinou funciona mesmo! Fui lá, tirei o braço dele da frente e passei muito fácil!”, explicou. Apenas lhe dei os parabéns e falei que sem sua jogada, não teríamos vencido.

Foi ali que percebi que estava fazendo as apostas certas. Eu não sou pago para treiná-los, mas esse tipo de reconhecimento vale mais do que qualquer salário. E ao contrário do dinheiro, isso ninguém pode tirar de mim.

Creio ser essa a essência de ser um técnico. Fornecer a alguém as ferramentas e as técnicas para executar o trabalho. Imagine a gratidão, então, de fazer isso no primeiro jogo oficial, sendo um brasileiro treinando jovens americanos, aplicando técnicas que, anos atrás, traziam alegrias a meus sábados no gramado do museu Oscar Niemeyer. Impossível não pensar que esse é o surgimento de um novo ciclo.

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Comments
  1. CAN'T LOSE says:

    Antes essa música me lembrava um seriado, agora, ao escutar as primeiras notas só consigo pensar em um punhado de caras, treinos, jogos, viagens, noites viradas, conversas, planos e muitas, mas muitas risadas. Adoro esse esporte e não penso em parar, mas o sentimento nunca mais será o mesmo. Se não ganhamos troféus, ganhamos algo muito mais importante para lembrar por toda a vida. Agora você está ajudando a dar a esses garotos essas lembranças, esse bem inestimável que faz parte do que eles serão para sempre, nunca esqueça. Clear eyes, full hearts…

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